Enquanto fumo um cigarro na varanda e vejo o Tejo e as estrelas penso na minha vida. Nos altos e baixos que já tive... Neste momento sinto que estou num alto mas uma parte de mim desconfia. Acho que tirei os pés demasiado depressa do chão e não deixei nenhuma raiz para que a queda não seja tão grande. Se voltar a cair sei que não recupero novamente. A vida é feita de oportunidades e nem sempre as vemos à nossa frente...
A minha vida está numa correria. Sinto que estou a correr contra o tempo. Sinto que tenho que sentir tudo ao mesmo tempo para não perder mais tempo. Sinto que tirei as muralhas todas e todas as carapaças que construí. E ao mesmo tempo tenho medo, pânico, terror e aflição que possa cair. Que foi cedo demais, que não deveria ter baixado a guarda. Preciso de me proteger, preciso de ter cuidado. A queda será grande se acontecer e provavelmente não irei recuperar. Estou cansada de cair e levantar de novo.
Ainda há um mês chorava pela vida. Chorava porque desistia de lutar. Chorava porque não conseguiria aguentar mais quedas. Chorava porque acreditava que nunca iria ter sorte. Chorava por conformismo da minha má sorte. Acreditava que não teria nunca o futuro que tinha sonhado... Chorei até não conseguir mais. Nessa noite agarrada à minha mãe simplesmente desisti de ter esperança. Chorei pelo meu passado, chorei pela merda de presente que tinha e chorei por um futuro que nunca iria ter. No dia seguinte as marcas eram evidentes dessa noite. A cara estava inchada, o sorriso há muito perdido, os olhos tinham perdido a esperança e o corpo não aguentou mais. Dormi tudo o que tinha perdido durante meses, dormi como um robô sem sentir nada. E durante uma semana assim andei, sem sentir nada, um autómato a deambular entre casa e escola. Fui mais uma vez ao inferno e voltei. Lentamente comecei a recuperar tudo o que tinha perdido. Lentamente levantei-me de novo. Conformei-me e recuperei novamente a esperança...
E agora nesta cadeira, numa casa que nunca pensei em estar a olhar o rio encho-me de dúvida e de receio sem querer acreditar que tive sorte. Que isto caiu-me no colo sem ter pedido. Se calhar é só uma aventura. Se calhar daqui a um mês cada um seguiu o seu caminho. Se calhar tudo mudou.
Tento colocar as dúvidas, os medos e os receios todos para trás das costas. Decidi arriscar e viver, aproveitar o que a vida me deu. Vivo como se não houvesse amanhã e apenas existisse o hoje. O problema é se o hoje acaba e não há amanhã. Mas num segundo afundo tudo e esqueço... Mas sei que preciso de colocar um pé no chão. Sei que preciso de ser mais ponderada. Esta semana vou para cima e vou pensar na minha vida. É tão bom acordar com um sorriso estúpido e adormecer com outro. Ou cada vez que o telefone toca.
Amanhã penso no amanhã... Hoje não...