sábado, 28 de março de 2015
terça-feira, 24 de março de 2015
sábado, 21 de março de 2015
quinta-feira, 19 de março de 2015
quarta-feira, 18 de março de 2015
Someone lost a letter...

Houve um dia que passeava por uns jardins, estava um dia muito bonito, daqueles que não faz frio nem calor, o sol brilhava no céu azul. Andava a passear por esse jardim sozinha embrenhada com os meus pensamentos, é sempre a melhor terapia que encontro quando o stress de viver numa cidade agitada torna-se demasiado insuportável. Fugir da cidade e ir para um sítio qualquer onde não hajam pessoas, carros, barulho, poluição. Ar fresco para a cara, ar fresco para os pulmões, ar fresco para a alma. No último destes passeios decidi escolher um local onde a história reina. Onde há muralhas, palácios e jardins secretos para desvendar. Andava perdida por esses jardins encantados e imaginar como tinha sido a vida das pessoas que ali viveram, que mistérios, sonhos, histórias de amor teriam acontecido ali. E foi numa dessas muitas ruínas que vi um papel branco abandonado. Estava num local de difícil acesso mas intrigou-me porque estaria ali um papel abandonado. Naquele segundo a curiosidade falou mais alto e dei por mim a ir buscar o papel. Com muito cuidado para não cair pois a altura era equivalente a 9 andares, pondo as mãos e os pés em pequenas fendas lá consegui apanhar o papel e voltar para um lugar seguro. Abri o papel e vi que tinha uma escrita antiga, que era uma carta. Mas não poderia ler ali, precisava de um sítio especial pensei eu. Fui à procura de um banco de jardim no meio de flores. Sentei-me e comecei a ler o papel.
Meu amor,
Há muito tempo que parti é certo. Foram há meses mas parece uma vida inteira. A vida aqui não tem sido fácil. Temos pouca comida, a chuva não pára há semanas e as saudades de ti aperta a cada dia que passa. Ainda não levei nenhum tiro e não tenho nenhum arranhão, sei o quanto isso te preocupa. Por vezes penso em como seria bom levar um tiro numa perna e ficar inválido, era da maneira que estaria contigo mais cedo do que o previsto. Como em todas as guerras, esta não tem fim à vista e parece-me que não acaba nos próximos meses. O nosso filho já nasceu e eu nunca lhe vi a cara. É parecido com quem? Espero que tenha os olhos da mãe. São vocês a minha esperança, a minha força de continuar dia após dia aqui e não desistir. Ontem o meu melhor amigo morreu a caminho de casa, estava inválido e deram-lhe a licença para ir para casa mas houve uma emboscada e nenhum sobreviveu. Malditos estes homens que não deixam ninguém vivo e matam indiscreminadamente. Fiquei sem ele e o desespero tem sido grande, há momentos que acho que vou explodir de tristeza. As noites não têm sido boas companheiras e choro todos os dias como um bébé, só a ti posso dizer isto, só a ti posso mostrar a minha fraqueza e desabafar. É a tua imagem que vem aos meus sonhos todos os dias dar-me a força para acordar de manhã. Lembras-te quando éramos ainda crianças e íamos pescar na casa que agora é a nossa? E daquela vez que eu desequilibrei-me e caí dentro de água? Um sorriso, um simples sorriso habita agora na minha cara ao pensar nesses dias e em como eras bonita na altura e ainda és mais agora. Como estas saudades apertam meu Deus. Como tem sido difícil isto tudo. Mas não te quero pôr triste, longe de mim fazer isso, és a pessoa mais importante da minha vida e o nosso filho é a prova do nosso amor. Espero que ao leres estas linhas agora tenhas aquele sorriso que tanto gosto e que não estejas a chorar. Amanhã escreverei mais uma carta, como o fiz até agora e vou continuar a fazer até ao meu regresso, já que não podemos estar juntos ao menos tens as minhas palavras todos os dias. Espero voltar em breve.
Da pessoa que mais te ama neste mundo,
Manuel
Acabo de ler esta carta e dou por mim banhada em lágrimas. Quem terão sido estas pessoas? O que terá acontecido a este amor? Será que voltaram a estar juntos? Que guerra terá sido? Estas e muitas outras perguntas vêm à minha cabeça. Sinto-me tentada em descobrir a história deles e ponho mãos à obra sem saber o que me esperava. Não seria uma história feliz nem tão pouco uma triste. Seria uma história de mistérios e de fantasmas, mas precisei de o fazer. Foi através desta carta que a minha vida mudou radicalmente. Foi por uma simples curiosidade humana que acabei por conhecer estas pessoas de outrora, que acabei por me conhecer...
P.S. - Continua no próximo capítulo desta ficção. Quando tiver estas epifanias (já decorei o significado que teimava em desaparecer da cabeça!).
Meu amor,
Há muito tempo que parti é certo. Foram há meses mas parece uma vida inteira. A vida aqui não tem sido fácil. Temos pouca comida, a chuva não pára há semanas e as saudades de ti aperta a cada dia que passa. Ainda não levei nenhum tiro e não tenho nenhum arranhão, sei o quanto isso te preocupa. Por vezes penso em como seria bom levar um tiro numa perna e ficar inválido, era da maneira que estaria contigo mais cedo do que o previsto. Como em todas as guerras, esta não tem fim à vista e parece-me que não acaba nos próximos meses. O nosso filho já nasceu e eu nunca lhe vi a cara. É parecido com quem? Espero que tenha os olhos da mãe. São vocês a minha esperança, a minha força de continuar dia após dia aqui e não desistir. Ontem o meu melhor amigo morreu a caminho de casa, estava inválido e deram-lhe a licença para ir para casa mas houve uma emboscada e nenhum sobreviveu. Malditos estes homens que não deixam ninguém vivo e matam indiscreminadamente. Fiquei sem ele e o desespero tem sido grande, há momentos que acho que vou explodir de tristeza. As noites não têm sido boas companheiras e choro todos os dias como um bébé, só a ti posso dizer isto, só a ti posso mostrar a minha fraqueza e desabafar. É a tua imagem que vem aos meus sonhos todos os dias dar-me a força para acordar de manhã. Lembras-te quando éramos ainda crianças e íamos pescar na casa que agora é a nossa? E daquela vez que eu desequilibrei-me e caí dentro de água? Um sorriso, um simples sorriso habita agora na minha cara ao pensar nesses dias e em como eras bonita na altura e ainda és mais agora. Como estas saudades apertam meu Deus. Como tem sido difícil isto tudo. Mas não te quero pôr triste, longe de mim fazer isso, és a pessoa mais importante da minha vida e o nosso filho é a prova do nosso amor. Espero que ao leres estas linhas agora tenhas aquele sorriso que tanto gosto e que não estejas a chorar. Amanhã escreverei mais uma carta, como o fiz até agora e vou continuar a fazer até ao meu regresso, já que não podemos estar juntos ao menos tens as minhas palavras todos os dias. Espero voltar em breve.
Da pessoa que mais te ama neste mundo,
Manuel
Acabo de ler esta carta e dou por mim banhada em lágrimas. Quem terão sido estas pessoas? O que terá acontecido a este amor? Será que voltaram a estar juntos? Que guerra terá sido? Estas e muitas outras perguntas vêm à minha cabeça. Sinto-me tentada em descobrir a história deles e ponho mãos à obra sem saber o que me esperava. Não seria uma história feliz nem tão pouco uma triste. Seria uma história de mistérios e de fantasmas, mas precisei de o fazer. Foi através desta carta que a minha vida mudou radicalmente. Foi por uma simples curiosidade humana que acabei por conhecer estas pessoas de outrora, que acabei por me conhecer...
P.S. - Continua no próximo capítulo desta ficção. Quando tiver estas epifanias (já decorei o significado que teimava em desaparecer da cabeça!).
Março de 2006
domingo, 15 de março de 2015
A minha árvore preferida do jardim
Esta é a minha árvore preferida do meu jardim. É também um quadro de Van Gogh e também tive que comprar o poster. É um pedaço de papel, não é pintado mas não quero saber. A intenção é que conta.Adoro esta árvore porque é a única que tem flores. Uma amendoeira encontra-se no meio do jardim e hoje subi a ela. O tronco representa a força, as flores brancas representam a paz. São poucas as vezes que subo a esta árvore. Só mesmo em alturas especiais. E hoje foi uma delas. Decidi sentar-me no ramo mais grosso. Pés esticados e costas contra o tronco olhei cá para baixo. Precisava de me elevar acima de todas as coisas. Precisava de olhar cá para baixo e ver as formiguinhas que passavam.
Há coisas que me deixam mal, há fantasmas que não me largam e por vezes subir à árvore é a melhor coisa que faço. É o meu refúgio, é o meu canto. Por vezes tenho vontade de desaparecer deste mundo por uns dias e como não posso, nem é possível que tal aconteça, refugio-me em cima da árvore. É para ela que olho quando desvio os olhos das pessoas. É para ela que olho enquanto passeio por algum sítio. Não estou no mundo da Lua, estou simplesmente a olhar para ela. E perco-me, e encontro-me nela. E faço perguntas mas não oiço respostas. E faz-me perguntas e não sei responder.
Mas numa coisa estamos ambas de acordo. A vida não é justa. A vida não é simples. Ter uma vida banal e normal é coisa que nunca terei. Nunca saberei experimentar isso. Coisas fúteis e banais nunca me preocupei. E por ter tido uma vida extraordinária nunca conseguirei ter a paz de que tanto procuro. Não poderia ter, apenas posso sonhar. Mas enganem-se aqueles que pensam que a vida extraordinária que tive foi boa. Não, não foi. Passei por muito mas isso fica para mim...
Sou um pássaro com as asas partidas que deambula por aí. Já voei e já caí, e neste momento com as asas ligadas trepo a custo para cima da árvore. E a única coisa que conforta o eu, pássaro é o eu, pessoa. Mas não sei voar. Não consigo voar. Tenho ajuda para o fazer, sei que tenho. Mas sou um pássaro livre que precisa de encontrar o seu caminho e propósito. E com o tempo as asas vão-se curar e vou conseguir voar outra vez. A esperança é a última a morrer, tem que ser. De que vale viver se não acreditarmos que um dia tudo se resolverá?
Mas numa coisa estamos ambas de acordo. A vida não é justa. A vida não é simples. Ter uma vida banal e normal é coisa que nunca terei. Nunca saberei experimentar isso. Coisas fúteis e banais nunca me preocupei. E por ter tido uma vida extraordinária nunca conseguirei ter a paz de que tanto procuro. Não poderia ter, apenas posso sonhar. Mas enganem-se aqueles que pensam que a vida extraordinária que tive foi boa. Não, não foi. Passei por muito mas isso fica para mim...
Sou um pássaro com as asas partidas que deambula por aí. Já voei e já caí, e neste momento com as asas ligadas trepo a custo para cima da árvore. E a única coisa que conforta o eu, pássaro é o eu, pessoa. Mas não sei voar. Não consigo voar. Tenho ajuda para o fazer, sei que tenho. Mas sou um pássaro livre que precisa de encontrar o seu caminho e propósito. E com o tempo as asas vão-se curar e vou conseguir voar outra vez. A esperança é a última a morrer, tem que ser. De que vale viver se não acreditarmos que um dia tudo se resolverá?
Dezembro de 2005





