Ontem decidi morrer. Não me sentia bem. Estava demasiado triste para suportar a vida. A vida tinha sido demasiado injusta e num dia eu fui-me abaixo. Talvez tenha sido a explosão de um acumular de coisas tristes. Tinha percebido que a vida simplesmente não era justa e por mais que tentasse amá-la, vivê-la, ela puxava o tapete. Decidi que não iria levar a melhor. E que estava farta das partidas dela. Ontem morri...
Decidi ter uma morte bela. Uma morte como eu queria. Aproveitei o facto de ficar sozinha para tentar organizar a vida que deixava para trás. Um testamento feito com as poucas coisas que tenho mas que são importantes. Cada coisa tinha o seu destino. E decidi dar tudo. Afinal não precisava de coisas materiais para onde ia. A única coisa que precisava naquele momento era paz. E nenhuma coisa material me dava isso. Ontem morri...
Calmamente fui à casa-de-banho, enchi a banheira de água. Sem qualquer pinga de água fria. Pois o efeito não seria o mesmo e a morte não era bela. Enquanto a água corria fui escolher a minha melhor roupa. Queria ser encontrada com um ar sereno e com a minha roupa preferida. Troquei de roupa muito calmamente. Não havia pressa. Para onde ia o tempo não importava. Ontem morri...
A música também tinha que ser escolhida a dedo. Bandas sonoras que atravessaram a minha vida. Que trazem recordações, pessoas, momentos. Tinha que ser uma música especial. Quem me encontrasse tinha que ficar maravilhado com o cenário e não chocado. Tinha que sonhar onde eu estaria e não olhar simplesmente para um corpo sem vida. Ontem morri...
Depois de tudo estar pronto, entrei na banheira calmamente. A água estava a ferver e evaporava-se a uma velocidade louca. Na casa-de-banho já existia uma bruma. Não humidade no ar pois estragaria o efeito do cenário, do sonho, do encantamento. Deitei-me lentamente. A banheira tinha aumentado de repente. As minhas pernas conseguiam ficar esticadas. Obrigada por este gesto encantado. Ontem morri...
Não senti dor. A pele queimava. O calor seria insuportável para qualquer pessoa. Mas não para mim. Era um calor apaziguante, ternurento. Eu era especial e merecia uma morte bela. Não podia ser de maneira diferente, banal. Pus a cabeça dentro de água. Fechei os olhos para o mundo. Para a vida. E com um sorriso gigantesco na cara deixei-me ir. Não senti dor, não senti medo, não senti nada de mau. Senti a paz a percorrer-me o corpo. Lentamente dos pés à cabeça. Não poderia ser de outra forma. Não podia começar pela cabeça pois deixaria de ser uma morte bela. Não me lembro quando o cérebro finalmente desligou-se. Quando o coração deixou de bater. Apenas a paz e os sonhos perduraram. Ontem morri... E foi a morte mais bela que alguma vez vi. E consegui dar eu um murro à vida. Passei-lhe a perna e nem deu por isso. E ontem sem mais nem menos eu morri...
Dezembro de 2005