quarta-feira, 18 de março de 2015

Someone lost a letter...


Houve um dia que passeava por uns jardins, estava um dia muito bonito, daqueles que não faz frio nem calor, o sol brilhava no céu azul. Andava a passear por esse jardim sozinha embrenhada com os meus pensamentos, é sempre a melhor terapia que encontro quando o stress de viver numa cidade agitada torna-se demasiado insuportável. Fugir da cidade e ir para um sítio qualquer onde não hajam pessoas, carros, barulho, poluição. Ar fresco para a cara, ar fresco para os pulmões, ar fresco para a alma. No último destes passeios decidi escolher um local onde a história reina. Onde há muralhas, palácios e jardins secretos para desvendar. Andava perdida por esses jardins encantados e imaginar como tinha sido a vida das pessoas que ali viveram, que mistérios, sonhos, histórias de amor teriam acontecido ali. E foi numa dessas muitas ruínas que vi um papel branco abandonado. Estava num local de difícil acesso mas intrigou-me porque estaria ali um papel abandonado. Naquele segundo a curiosidade falou mais alto e dei por mim a ir buscar o papel. Com muito cuidado para não cair pois a altura era equivalente a 9 andares, pondo as mãos e os pés em pequenas fendas lá consegui apanhar o papel e voltar para um lugar seguro. Abri o papel e vi que tinha uma escrita antiga, que era uma carta. Mas não poderia ler ali, precisava de um sítio especial pensei eu. Fui à procura de um banco de jardim no meio de flores. Sentei-me e comecei a ler o papel.

Meu amor,
Há muito tempo que parti é certo. Foram há meses mas parece uma vida inteira. A vida aqui não tem sido fácil. Temos pouca comida, a chuva não pára há semanas e as saudades de ti aperta a cada dia que passa. Ainda não levei nenhum tiro e não tenho nenhum arranhão, sei o quanto isso te preocupa. Por vezes penso em como seria bom levar um tiro numa perna e ficar inválido, era da maneira que estaria contigo mais cedo do que o previsto. Como em todas as guerras, esta não tem fim à vista e parece-me que não acaba nos próximos meses. O nosso filho já nasceu e eu nunca lhe vi a cara. É parecido com quem? Espero que tenha os olhos da mãe. São vocês a minha esperança, a minha força de continuar dia após dia aqui e não desistir. Ontem o meu melhor amigo morreu a caminho de casa, estava inválido e deram-lhe a licença para ir para casa mas houve uma emboscada e nenhum sobreviveu. Malditos estes homens que não deixam ninguém vivo e matam indiscreminadamente. Fiquei sem ele e o desespero tem sido grande, há momentos que acho que vou explodir de tristeza. As noites não têm sido boas companheiras e choro todos os dias como um bébé, só a ti posso dizer isto, só a ti posso mostrar a minha fraqueza e desabafar. É a tua imagem que vem aos meus sonhos todos os dias dar-me a força para acordar de manhã. Lembras-te quando éramos ainda crianças e íamos pescar na casa que agora é a nossa? E daquela vez que eu desequilibrei-me e caí dentro de água? Um sorriso, um simples sorriso habita agora na minha cara ao pensar nesses dias e em como eras bonita na altura e ainda és mais agora. Como estas saudades apertam meu Deus. Como tem sido difícil isto tudo. Mas não te quero pôr triste, longe de mim fazer isso, és a pessoa mais importante da minha vida e o nosso filho é a prova do nosso amor. Espero que ao leres estas linhas agora tenhas aquele sorriso que tanto gosto e que não estejas a chorar. Amanhã escreverei mais uma carta, como o fiz até agora e vou continuar a fazer até ao meu regresso, já que não podemos estar juntos ao menos tens as minhas palavras todos os dias. Espero voltar em breve.
Da pessoa que mais te ama neste mundo,
Manuel

Acabo de ler esta carta e dou por mim banhada em lágrimas. Quem terão sido estas pessoas? O que terá acontecido a este amor? Será que voltaram a estar juntos? Que guerra terá sido? Estas e muitas outras perguntas vêm à minha cabeça. Sinto-me tentada em descobrir a história deles e ponho mãos à obra sem saber o que me esperava. Não seria uma história feliz nem tão pouco uma triste. Seria uma história de mistérios e de fantasmas, mas precisei de o fazer. Foi através desta carta que a minha vida mudou radicalmente. Foi por uma simples curiosidade humana que acabei por conhecer estas pessoas de outrora, que acabei por me conhecer...

P.S. - Continua no próximo capítulo desta ficção. Quando tiver estas epifanias (já decorei o significado que teimava em desaparecer da cabeça!).

Março de 2006

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